Reminiscências de uma antiguidade tortuosa e longínqua,
essências quase perdidas de espectros do passado, fazem de nós, gerações do
presente, consequências de uma evolução nem sempre pacífica, nem sempre
errante, senhores de um Mundo que não é nosso.
Adultos somos, jovens fomos, idosos eventualmente seremos…
Outrora respeitáveis e respeitados em civilizações
esquecidas, são, agora, pouco mais que um fardo na nossa civilização… nós o
seremos ainda mais...
No que deveria ser a idade dourada, prateada, quando os
rendimentos de um passado produtivo para mais não chegam, vive-se com pouca
dignidade, encaixotados muitas das vezes em lares sem espaços verdes, sem os
cuidados médicos necessários, sem a atenção merecida.
Com tanto para transmitir, experiências de vida únicas,
ainda de tempos sem carros num País imenso e em si fechado. Lendas e tradições
perdidas de uma cultura singular. Tanto carinho e amor para dar, perdidos em
salas isentas de movimento à espera do fim.
Vivem, à espera da morte, sentem-se sozinhos, com depressões
que os médicos já não curam. Têm um tratamento “diferente” nos centros de saúde
ou hospitais. A despesa em medicamentos é desmesurada em comparação com a parca
reforma.
Nem sempre chegamos a velhos e na generalidade dos casos, será
uma bênção…
Recordo com saudade a minha avó, longo cabelo branco, sempre
preso a recordar uma Fräulein alemã. Recordo os olhos verde-água, muito
límpidos, perfeitos e os longos Verões passados à beira-mar, ainda menino. E
que boas as suas sopas eram… É claro que ansiava particularmente por um arroz
doce como nunca mais comi…
Lamento profundamente, que a minha juventude me tenha
afastado de um conhecimento mais profundo da sua vida. Partes do seu passado
que perdi sem possibilidade de recuperar.
É muito difícil ser-se idoso em Portugal.
Angustia-me saber que merecem mais, mais carinho, mais
atenção, melhores condições de vida, mas sobretudo, mais amor.

